Agora que chegou aqui não tem mais volta, meu amigo.

Então leia e aproveite o que minha loucura criatividade tem para oferecer.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A porta do demônio

Moro em uma casa antiga, dessas construções feitas na década de 30/40. As paredes são bem grossas, coisa de uns 25cm. Meu quarto tem um roupeiro embutido, bem grande e espaçoso. Além disso, acima dele tem um segundo compartilhamento, uma portinha quadrada que tem acesso a um espaço extra, quase um "mini sótão".

É sobre esse espaço que quero falar.

Toda noite, antes de dormir, me certifico de que ele está fechado mas, ao acordar de manhã, vejo que está aberto novamente. Sempre. E não, isso não é uma piada, tampouco um dos contos de horror que já fiz neste blog, é real.

Não sei o que acontece, se é algo da madeira, se a curvatura não encaixa e abre lentamente. Minha teoria favorita é que há um demônio vivendo ali dentro.

Ele me observa durante a noite. Algumas vezes quando desperto de madrugada visualizo silhuetas pelo quarto. É o demônio do mini sótão. Quando percebe que acordei ele volta rapidamente pela portinha. Não é um demônio do mal, só é um demônio solitário, afinal, não deve ser divertido morar em um espaço 2m x 1m.

Quais as intenções do demônio? Definitivamente não quer a minha alma, já tem tanto tempo e nunca tentou roubar ela. Talvez fique mandando mensagens pro meu inconsciente enquanto durmo, pra me fazer mudar as atitudes durante o dia. Ou é mesmo só um voyeur, tem fetiche pra tudo.

Já pensei em trancar a portinha, prender o demônio lá dentro e nunca mais ser perturbado. Mas daí considerei a respeito, melhor não. Convivo a tanto tempo com meus demônios internos, que mal fará um demônio externo?

P.S.: A foto do post é a portinha do meu mini sótão.

domingo, 21 de dezembro de 2014

A vida, o universo e tudo mais

Era o mesmo de sempre, a família comemorando, todos brindando, entrega de presentes e aquelas mesmas piadas de peru, pavê e etc. Apesar de ser uma confraternização, não aguentava mais, pegou e saiu da casa perto da meia noite. Precisava respirar o ar noturno, ficar um pouco sozinho.

As ruas estava desertas, claro, pois todos estavam em suas casas comemorando a noite de natal. Feriadinho sem importância.

Andando a esmo, refletindo sobre a vida, o universo e tudo mais, deparou-se com a rodovia estadual logo a frente. Havia uma passarela para fazer a travessia para o outro lado, e lá foi o rapaz, subindo devagar, contando os passos (um velho hábito da infância), parou exatamente na metade da passarela. Inclinou-se no parapeito e ficou olhando pra baixo. Apesar de ser perto da meia noite, havia uma grande quantidade de carros trafegando.

O que ele fazia ali parado? Nada além de ficar olhando. A mente estava completamente vazia, frente os milhares de pensamentos que transitavam alguns minutos atrás. Como é curiosa a mente humana, não?

Veio apenas uma coisa na cabeça: uma visão dele pulando dali, rumo ao solo. Veio seguido de uma única pergunta: E por quê não? E foi se inclinando mais e mais, ficando perigosamente na beirada.

"Bonita a vista, não acha?" - Veio essa voz logo ao lado dele.

Havia um senhor de barba e uma jaqueta de motoqueiro ali parado a poucos metros. Como ele não viu antes?

"Sim, bonita e impactante, eu diria." - Foi a resposta.

Aquele senhor exaltava um ar de paz e harmonia. Começou a puxar assunto. Falou do calor da noite, dos fogos de artifício que logo apareceriam, dos carros passando logo abaixo e também de como ele odiava essas reuniões de família.

O rapaz descontraiu, era uma conversa muito incentivadora. Ele ainda estava no parapeito, mas apenas se recostando pra manter o papo. Falava de muita coisa, até da vida, do universo e tudo mais.

Que senhor simpático, ouvia e dava conselhos pro jovem. Alguns que até ajudaram a superar os pensamentos da ex que o abandonara poucos meses antes. Rá, sempre é problema com a ex, não?

De repente os fogos de artifício iniciaram. Um show de fogos, na verdade. Lindo de se ver do ponto que estavam. O rapaz agradeceu muito o senhor e voltou pra casa, afinal, tinha que dar uns abraços e desejar feliz natal, faz parte do cronograma familiar.

Por muito tempo depois disso, nenhum pensamento sobre pular de pontes veio a mente dele, tampouco desesperos emocionais por causa de ex. Apenas pensava que se aquele cara era o Papai Noel, que pelo menos tinha uma jaqueta estilosa. Será que o trenó era uma Harley Davidson?

E assim seguiu a vida.

...

P.S: "A vida, o universo e tudo mais" é o terceiro livro da trilogia de cinco partes do Guia do Mochileiro das Galáxias. Recomendo, pois há um nível filosófico altíssimo entre as piadas.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Conto de Natal?


Descendo a estrada em sua Harley, barba branca ao vento, jaqueta de couro, camisa do AC/DC, um capacete de motoqueiro ao invés de gorro natalino. Esse é Noel, e ele está aproveitando os últimos dias antes do Natal.


Sim, o bom velhinho só é bom uma vez ao ano.

Parou em frente ao bar na beira da estrada. Desceu da moto e entrou grosseiramente pela porta de entrada. Sentou no balcão e pediu de cara um wisky duplo sem gelo. Esse é Noel, o velho mais motherfócka do planeta.

"Ei, velhote, cadê meu presente?" - riu um babaca que estava em um grupo na mesa logo atrás.

"Aqui, seu malcriado!" - E Noel tocou um pedaço de carvão na cara dele.

Instaurou-se a pancadaria. Cinco caras foram pra cima de Noel, mas o velho é durão, dois já derrubou logo de cara com socos de direita. Mais dois tentaram agarrar os braços dele, mas com um rápido movimento fez se chocarem cara a cara um com o outro.

O último era o que zombou antes. Puxou uma faca e atacou, mas Noel desviou, juntou uma caneca de vidro e tocou na cabeça dele. O cara ficou tonto, e Noel aproveitou pra dar um butinaço nas bolas do sujeito.

"Ho ho ho, seu filho da puta".  - Noel disse isso e bateu na cabeça dele com uma cadeira. Esse é Noel, um velho sarcástico que manja de porrada.

Voltou ao balcão, olhando pros lados imaginando se mais alguém o desafiaria, mas ninguém teve coragem. Virou seu wisky e foi embora.

Antes de sair, falou a todos "Comportem-se, crianças, vejo vocês dia 25."

Born To Be Wild ao fundo, e Noel seguia em sua Harley pela estrada. Bonzinho, só no Natal.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Na ponta do lápis

Com o lápis e uma folha de papel em minha frente, tudo que eu queria era fazer um simples desenho. Mas estava de cabeça cheia. Pensamentos e mais pensamentos, comprimindo cada pedaço do cérebro com suas significâncias.

Fiz um risco a mão livre. Foi de uma ponta a outra. Mas ele continuou, fez um arco e seguiu.

Deixei minha mão guiando aqueles riscos, vamos ver no que vai dar.

Surgiu uma cenário simples com um espaço em branco no meio, sem muitos elementos. Mas a ponta do lápis seguiu colocando detalhes e sombras. O que eram? Será que prateleiras ao fundo? Acho que sim.

O lápis foi para o meio, começou a contornar um rosto. Robusto, sério. Olhos marcados com uma sobrancelha forte, nariz médio, barba cerrada. Peraí, era meu rosto? Provavelmente.

Mas minha mão não parou. O lápis começou a revisitar outros extremos. Deixando traços cada vez mais fortes e sombrios, a estante ao fundo começou a ficar suja e decadente, como se estivesse podre e velha.

Mais do que isso, o rosto que parecia o meu começou a se transformar. Virou sério, começou a mudar a expressão, parecia louco. Serei eu ainda?

Cada vez mais sombrio, malicioso, esse retrato personificava o mal. Serei eu o mal encarnado na terra? Todo esse desenho vem sem eu ordenar. Que magia é essa?

Chegou um ponto que não aguentei mais ver. Era horripilante o ser desenhado. Um demônio indescritível, cujo ódio encarnado no olhar despertava o desespero naquele que desafiasse encará-lo.

Pulei da mesa de desenho. Suando, desesperado, esfreguei meus olhos para tirar aquelas imagens da mente. Olhei de novo e o papel estava vazio.

Eu não desenhei nada. Eram só pensamentos. Estava apenas de cabeça cheia.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Ele só quer paz

Certo dia ele pensou em largar tudo. Esquecer a todos, obrigações, compromissos, horários, não queria mais nada. Apenas a paz de conviver consigo mesmo.

Cansado das tempestades diárias, tendo o esteio que mantém seus princípios e integridades rompido a cada ato de desapontamento. Desgostoso com as frustrações que surgem quando se esforça muito por algo. Até quando se doa de corpo e alma por um ideal que acha justo, mas que no fim volta-se contra ele mesmo.

Ele quer liberdade. A liberdade real, aquela que agrada ao espírito, e não essa falsa que nos corrompe diariamente com promessas de algo melhor que "ainda está por vir" enquanto nos desgastamos obedecendo as regras.

Também não quer ser um fora da lei. Não há necessidade disso, pois o outro extremo deriva do radicalismo, e aqueles que são radicais também estão presos no sistema, só que de princípios e ideias diferentes.

Ele só quer paz. Só isso. Nada mais.

Mas o que é paz? Qual o significado de paz? Para uns é manter pleno domínio sobre os mais fracos, para outros é simplesmente sair na rua sem levar um tiro do vizinho.

É preciso ser sábio para conceituar o real significado de paz, que varia para cada um. Ser sábio é algo que requer muito tempo e experiência, e ele não tem nada disso ainda. O que fazer? Pra onde ir? A quem pedir auxílio?

Não fazendo a menor ideia, teve que considerar suas prioridades. Adoraria largar tudo, assim como foi dito no primeiro parágrafo. Mas não pode. Ninguém pode, a não ser que esteja pronto para uma vida de amargura e sofrimento, cortesia de um mundo corporativo que execra aqueles que tentam viver as margens do sistema capitalista.

Será que existe algo que ele possa fazer? Tem como tirar um pouco desses pesos da mente?

Ele não sabe. Ele só quer paz, mas não faz ideia de como conseguir. Poisé...

terça-feira, 9 de julho de 2013

Maldito ônibus


Voltava do trabalho, mais um dia de correria se encerrando, me encontrava no ônibus voltando para casa. Aquele maldito ônibus que sempre atrasava, sempre lotado... enfim, mais uma volta pra casa como todas as outras.

Pessoas por todos os lados. Gosto de observar pessoas e seus trejeitos, suas ações quando solitários, seu modus operandi. Curiosamente identifiquei um rosto conhecido, apesar de não lembrar nome ou de onde conhecia. Forcei a memória por uns minutos, até perceber de onde conhecia, era uma colega que tive nos primeiros anos de escola, uma longínqua época em meu período vital.

Não faço ideia do nome, só sei que brincávamos eventualmente no pátio do colégio e fizemos alguns trabalhinhos escolares juntos. Nunca mais vi nem conversei, só sei que conheci.

Me aproximei para puxar conversa, pelo menos quebraria um pouco a monotonia de sempre no maldito ônibus.

Ao chegar perto, vi que tinha fones de ouvido, e mesmo com eles ficava claro e em bom som o funk carioca que emanava. Algo como "vai novinha, vai novinha" ou sei lá o quê.

Voltei para meu lugar, esperei até chegar minha parada e descer do maldito ônibus. As vezes é melhor deixar o passado quieto.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Desbravador

Um dia ele acordou e descobriu que podia se teletransportar para qualquer lugar. Foi um susto, viu o parque de diversões na televisão e desejou estar lá. Ouviu um chiado e tudo escureceu, no momento seguinte estava no meio do parque, ainda de pijamas. Uma confusão até ele concentrar-se novamente e conseguir voltar para seu pequeno apartamento de um quarto na periferia da cidade.

A vida nunca mais foi a mesma. Foi testando seu novo dom, indo a alguns lugares próximos, geralmente locais particulares ou caros que nunca teve condições de ir. Via-se em meio a festas, parques, clubes luxuosos, lugares onde normalmente ele só entraria se fosse como servente.

O melhor de tudo: não precisava gastar dinheiro, bastava fazer o que queria (ou pegar o que queria) e sumir sem deixar vestígios. Oportunamente ele até pegava dinheiro dentro de bancos quando bem desejava. Malandro o rapaz.

Os horizontes se ampliaram, começou a desbravar o mundo. Conheceu outras culturas, pontos turísticos famosos pelo mundo inteiro. Entrava gratuitamente em qualquer show, evento, museu, festa, fazia tudo que queria sem dificuldades. Bastava desejar, ouvir o chiado na escuridão e estava lá sem ninguém perceber.

Veio o melhor de tudo: conheceu mulheres. Muitas mulheres. Como podia ter tudo que quisesse, conquistava a todas rapidamente, de qualquer classe, idade, etnia, tipo físico. Bastardo sortudo.

Certo dia houve um problema: o poder falhou. Ele não conseguiu sair da festa de alta sociedade que estava. Vários problemas e quase foi preso até conseguir escapar da enrascada.

Não conseguia mais se teletransportar. Falhava o tempo todo, tudo começou a dar errado. Com isso veio um grave problema: os recursos gratuitos acabaram, precisou voltar a vidinha simples de antes já que não se preocupou em guardar algo. Trabalhar muito dia e noite pra ter um parco salário e pagar aquele minúsculo apartamento. Nada de luxo, sem frequentar dezenas de lugares inacessíveis a meros mortais, adeus mulheres européias de seios grandes.

Entrou em depressão, não suportava mais. Em uma hora tinha tudo, e de repente não tinha mais nada. Amaldiçoou os céus por tamanha crueldade, como poderia ter sido abençoado com tal dom e de repente voltar a ser o coitado de antes?

Desejou, com todas as forças, que estivesse caindo no centro de um vulcão. Acabar com todo esse sofrimento de maneira dolorosa no magma fervente.

Foi quando ouviu um chiado e tudo escureceu. O medo subiu a espinha, e de repente se viu em queda livre, rumo a morte iminente. Não preciso narrar o que aconteceu.

Já dizia o velho e conhecido ditado: Cuidado com o que deseja.

domingo, 18 de março de 2012

Táxi noturno

O táxi passava por aquela rua silenciosa na madrugada. Havia um cidadão sentado em uma parada, e fez sinal para o táxi parar. O táxi parou e ele entrou.

Taxista: Pra onde?
Passageiro: Para a vida!
Taxista: Haha. Sério, cara, pra onde?
Passageiro: Não tenho certeza, preciso alçar novos horizontes.
Taxista: Tá, cara! Diz pra onde ou sai do táxi!
Passageiro: Não se altere. Vai dirigindo por onde quiser, essa cidade é bonita e quero conhecer as ruas.
Taxista: Tá me zoando? Sem dinheiro, né?

Passageiro mostra um maço de notas grandes que tinha no bolso. Apesar de achar que o cara é louco, o taxista fez o que ele pediu.

Passageiro: Que noite boa.
Taxista: É.
Passageiro: Nunca se sabe o que esperar.
Taxista (já de saco cheio): É...
Passageiro: O que tu acha de trabalhar como taxista?
Taxista: É um trabalho como outro qualquer.
Passageiro: Mas não pode se contentar em ser um outro qualquer.
Taxista: Tu é psicólogo por acaso?
Passageiro: Não, sou só um cara que pensa demais.
Taxista: ....
Passageiro: Penso em tudo. Na sociedade e seus costumes, no ser humano, no que há além de nós...

Taxista começa a ficar com vontade de parar tudo e tocar o cara pra fora, mas pensa no dinheiro e muda de ideia.

Passageiro: Penso, acima de tudo, em mim mesmo.
Taxista (dessa vez curioso): Como assim?
Passageiro: Eu me questiono. Por que faço o que faço? Quem sou eu? Algumas coisas consigo resposta, outras não.
Taxista (dessa vez interessado): E o que tu já respondeu?
Passageiro: Pouca coisa. Se eu tivesse todas as respostas, seria taxista.

Nesse ponto o taxista fica puto da vida e toca o passageiro pra fora do táxi. Não tem dinheiro que compense aturar gente louca.

sábado, 10 de março de 2012

E era só uma garrafa

Aquele foi um dia difícil. Chegou em casa cansado, querendo apenas dormir. Antes de deitar, abriu a geladeira para tomar um pouco dágua, mas viu uma garrafa de cerveja lá no fundo. Pegou, viu que estava gelada e foi para a rua bebê-la.

Noite clara, as estrelas iluminavam o céu. Sentou-se no pequeno gramadinho na frente da casa e ficou quieto, pensando, divagando, imaginando e, claro, bebendo.

A rotina é exaustiva. Levanta 5h30 da manhã e vai pro trabalho, e do trabalho direto pra aula, pra voltar pra casa perto das 23h. Praticamente não vê a família, não brinca com a cadelinha que fica toda feliz quando vê o dono chegar no portão, seu lazer do dia se resumiu a tomar aquela única cerveja antes de cair na cama para iniciar tudo de novo no dia seguinte.

Pra que todo esse esforço? ele pensa. Mas já sabe a resposta, pois se esforçou a vida inteira, e diariamente colhe os frutos que planta, mesmo que ocasionalmente alguns apresentem uma podridão tremenda. Enquanto bebia ele não pensava melancólicamente. Pelo contrário, estava muito feliz. O trabalho é puxado, os estudos cada vez mais difíceis, e se auto amaldiçoou por ter que ver sua ex constantemente na faculdade. Está em um período difícil até se adaptar, mas continua feliz.

Percebeu que aquele sorriso no rosto quando levantou as 5h30 continuava quando chegou na aula após um dia de muito trabalho e, por incrível que pareça, estava ainda presente neste momento de relaxamento.

Ok! - ele disse. Acabou a cerveja, e era só uma garrafa que tinha na geladeira.

Foi pra cama e deitou feliz, estaria pronto para o próximo dia. Não importa o quanto tenha que trabalhar e estudar para crescer na vida, ele gosta do que faz, e isso basta.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Um conto de natal


Era noite de natal, toda a família já havia ido dormir, mas eu permaneci acordado e sem sono em meu quarto. O espírito de natal já havia me abandonado a muitos anos, não possuia mais crenças em velhinhos vestidos de vermelho com presentes. Grande erro!
Ouvi um barulho estranho, e de repente minha porta se escancarou. Era o Papai Noel, e estava bêbado. Começou a me xingar, dizendo que odeia caras que nem eu, que esquecem as coisas boas do natal e só pensam em futilidades. Mas ele começou a chorar enquanto falava. O problema não era eu no fim das contas, ele tava chateado com a vida e caiu do trenó por acaso na minha casa. Abri minha cachaça mineira e dividi com ele, ficamos bebendo e discutindo sobre a vida e o universo. O véio era bom de papo, demos altas risadas.
Chegou um ponto da noite em que ele olhou pra mim e disse: “Ah, to nem aí que tu não acredita em nada. Escolhe aí três coisas, independente de serem tangíveis ou não, que tu vai ganhar.” Não acredito! Papai Noel me deu passe livre pra presentes!
O pequeno nerd em mim gritou por super poderes (super força, voar e soltar raios AWW YEAAA!!), enquanto o nerd adulto pensou em poderes pra facilitar a vida (tele transporte, persuasão e fator de cura AWW YEAAA!!). Meu lado ambicioso pensou em dinheiro, mulheres e poder. Já o lado maricas queria algo como paz espiritual, achar o amor da vida e saúde (ignorei este).
Eram tantas possibilidades, tantas coisas, eu não sabia o que escolher. De repente algo pesou na minha cabeça, fechei os olhos pra pensar um pouco e apaguei. Acordei na manhã seguinte, Papai Noel tinha ido embora. Droga, desmaiei e não fiz meus três pedidos!
Mas olhei pra estante e vi uma garrafa de cachaça, uma revista rara do Super Homem e uma miniatura do Godzilla. Já que eu não fiz o pedido, ele deixou três coisas que eu gostaria. Obrigado, bom velhinho!

sábado, 29 de outubro de 2011

Assembléia dos Sentimentos

Aconteceu o pior: a garota que ele amava lhe deu um fora. Com o impacto de receber a notícia, todos os sentimentos e sensações que nele existem se reuniram em uma assembléia para decidir que informação deve ser passada para o mestre Cérebro coordenar o corpo.
Atenção todos! Precisamos decidir urgentemente a reação do cara! O Cérebro exige uma resposta o mais rápido possível! – falou chorosamente o Amor, que estava em prantos por ter sido rejeitado.
Não há o que fazer, vamos apenas ficar quietos. – indagou a Vergonha.
Nunca! Deixemos o fracasso de lado e tomemos uma atitude digna! – bradou a Coragem. A Confiança deu um urro em concordância.
Ei! Não precisa me avacalhar, to quieto no meu canto. – retrucou o Fracasso.
Eu concordo com uma reação. E que seja dolorosa! – gritou a Vingança, sendo fortemente apoiada pela Mágoa, o Ressentimento e os irmãos Raiva/Ódio.
Discordo disso. O que aconteceu, aconteceu, precisamos rever nossos conceitos e não deixar que isso nos incomode. – falou o Perdão. Este foi apoiado pela Compreensão. Mas apenas por ela.
E agora? O que vamos fazer? – disse a Ansiedade.
Apenas mandemos ele ficar sozinho e pensar no que fez de errado. – sugeriu a Calma. A Dor condoeu-se com essa resposta, pois sempre sobra pra ela nesses momentos.
Pensar no que fez de errado? Ela que está errada, aquela tola. – exclamou com vontade o Desprezo. O Rancor pensou em complementar a frase com algo mais forte, mas calou-se no último segundo.
Claro que fez algo de errado! Quisera eu que não tivesse feito! – era a Culpa, que começou a se auto flagelar, mas foi impedida pela Tristeza e a Decepção.
Chega! Vamos parar com esse papo furado. – gritou a Sabedoria.
Todos se calaram e esperaram o que a Sabedoria tinha a dizer.
Vamos mandar ele ligar pra um amigo e ir tomar cerveja no buteco da esquina! – disse ela, gloriosamente.
A Alegria e a Vitória começaram a aplaudir esta que seria a decisão mais acertada para enviar ao Cérebro. À exceção da Vingança e dos irmãos Raiva/Ódio, todos concordaram com isso. A maioria manda, esse é o princípio de uma democracia.
Quem levou a decisão para o Cérebro? A Indiferença. Afinal, não está nem aí pro que aconteceu. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Doce vingança

Chega!! Não vou mais bancar o bonzinho!! Quem ela pensa que é pra me tratar desse jeito? Vai ver só, vou me vingar da pior maneira possível. Minha vingança será doce!! BWAA HAH HAHA HÁ (risada maléfica).

Tantos meses que tenho me esforçado pra me aproximar dela, sempre sendo feito de bobo, sempre ficando em segundo lugar. Eu elogio de todas as formas possíveis pra ela não reclamar da vida, faço qualquer coisa que ela pede, sempre fico a total disposição, não importa que eu deixe meus trabalhos da faculdade ou minha família de lado, ela sempre é a prioridade!

Mas o que recebo em troca? Nada! Nem obrigado, na maioria das vezes. Ela fala mal de todos os caras que sai, que ninguém a entende, todos são horríveis, ignorantes, insensíveis e não tratam ela como a princesa que é. Mas eu sim!! Sempre estou ali pra dizer lindas palavras, pra dar um ombro amigo e tentar de todas as maneiras possíveis trazer felicidade a ela. Eu sonho com ela! Faço qualquer coisa por ela!

Só que dessa vez foi a gota d'água! Ela finalmente disse que ia sair comigo. Mas, justo no dia combinado, estava “mal” e não pode ir. Mas não é verdade! Horas depois eu a vi no shopping com outro cara!! Quando vier novamente falar comigo esperando ouvir coisas bonitas ou pedir favores receberá toda a maldade contida neste coração. Serei rude, maligno e cruel! Tenho cada palavra pronta, direi tudo que ela merece ouvir. Minha vingança será doce!! BWAA HAH HAHA HÁ (risada maléfica).

O telefone está tocando! E é ela!! A hora chegou, vou descarregar toda a minha fúria nessa maldita que ousou brincar com meus sentimentos.

Eu: Alô!

Ela: Oi, meu anjo!! Como vai?

Eu: Bem, e você?

Ela: Aiii, to com um problemão, meu computador estragou e preciso de alguém que saiba consertar....

Eu: Olha, eu até entendo um pouco, se quiser minha ajuda...

Ela: Ah, mas tu não tá muito ocupado agora?

Eu: Não! Imagina!!

Ela: Ah, ótimo! Vem agora de tarde, porque eu tenho um compromisso de noite. Kisses! Bye bye!

Desligou o telefone. Ela vai ver só, vou instalar um vírus no computador dela! Não, melhor que isso! Vou colocar um programa que lê tudo o que ela escreve pra saber o que fala de mim pras amigas! Minha vingança será doce! BWAA HAH HAHA HÁ (risada maléfica).

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Contrato Infernal

Era sábado de manhã e eu estava sozinho em casa. Para exercitar meus dons artísticos resolvi desenhar, mas por algum motivo não conseguia fazer nenhuma ilustração decente. Após algumas tentativas em vão exclamei “Droga! Tá errado de novo! O que eu não daria pra fazer certo as coisas...”.

Nessa hora uma luz vermelha iluminou todo o ambiente. Um cheiro forte de enxofre tomou conta e um homem chifrudo de terno e chapéu escuros surgiu a poucos metros de mim, ostentava papel e caneta nas mãos. Era o Anjo Caído.

Eu: PQP! Quer me matar do coração?
Diabo: Não, meu jovem, estou aqui apenas para resolver teus problemas.
Eu: É mesmo??? E que problemas seriam esses?
Capeta: Posso resolver qualquer um. Não gostaria de ser um mestre do desenho? Quem sabe ... tocar guitarra melhor que Hendrix? Algo mais fútil, como riqueza e poder? Ou os mais ocultos e pecaminosos desejos com o sexo feminino?
Eu: Interessante. O que é necessário pra conseguir isso tudo?
Lúcifer: Basta assinar o contrato. Qualquer coisa que seja redigida no contrato é possível!!
Eu: Ah, claro! Em troca da minha alma, imagino...
Cramunhão: Não. Quero apenas tua coleção de revistas em quadrinhos.
Eu: Nem pensar! Passei anos pra formar essa coleção, não troco de jeito nenhum!
Satanás: O quê? Prefere continuar com esses dons medíocres a ser um mestre das artes? Prefere batalhar cada centavo no dia a dia ao invés de riqueza imensurável? Prefere sofrer de diferentes formas ao invés de facilitar tudo?
Eu: Eu nem me preocupo tanto com essas coisas, tenho uma coleção de quadrinhos bem legal pra me distrair.

Ao ouvir essa resposta sarcástica o Belzebu enfureceu-se de forma nunca vista antes, soltou um rugido gutural e me amaldiçoou eternamente. Em seguida um redemoinho de fogo e enxofre surgiu do chão e levou o Barão do Inferno de volta para as profundezas. A iluminação vermelha sumiu e tudo voltou ao normal, com exceção daquelas cinzas fumegantes em forma de pentagrama que ficaram no chão.

Bem, joguei fora a chance de realizar meus maiores desejos. Mas não parei muito tempo pensando nisso, pois logo em seguida comecei a reler minhas revistas do Homem-Aranha e Super-Homem.


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Realidade paralela

Coloquei um espelho naquele canto vazio do quarto, desses grandes, onde se vê o corpo inteiro. Comprei baratinho em uma loja de penhores. Parei na frente dele e comecei a observar os detalhes do meu quarto e, obviamente, tudo estava ao contrário. Esse foi o primeiro dia.

No segundo dia havia algo de errado quando passei na frente dele. Meu pôster do AC/DC não estava na parede. Olhei pra parede real e confirmei que ele estava ali de fato. Deve ter sido algum efeito da cerveja que havia tomado. Apenas me deitei e dormi.

No terceiro dia eu estava sóbrio, e isso foi motivo de pânico quando olhei no espelho novamente. Onde antes estava o pôster do AC/DC havia um do Exaltassamba, onde antes estava minha guitarra agora havia um pandeiro. Minha estante de livros, gibis e criaturas em miniatura mudou de conteúdo: estava repleta de revistas de moda, produtos de beleza e uma pilha de CDs de pagode e sertanejo. Era o inferno.

No quarto dia não entrei no quarto. Dormi na sala. Minha mãe acha que sou louco.

No quinto dia tomei coragem e entrei lá armado de um pé de cabra. Tudo estava estranhamente normal dentro do espelho. Ele mostrava o quarto exatamente como ele é (mas ao contrário), nada de pagodices e boiolices. Suspirei aliviado e fechei os olhos para pensar um pouco.

Ao abrir os olhos, o medo tomou conta. O espelho voltou a mostrar aquele quarto demoníaco, e dessa vez eu havia mudado também. Minha calça preta e camiseta do Judas Priest se transformaram em um bermudão e uma camiseta branca justinha. Meu pescoço estava cheio de colares, minhas mãos cheias de anéis, minhas unhas estavam pintadas de rosa e meu cabelo tinha uma franja emo. Meu eu invertido sorria e me convidava para entrar lá e curtir a roda de samba.

Não sei qual a maldição desse espelho. Será que ele mostra o exato oposto do que somos? Será que é um portal para uma dimensão paralela? Será um castigo divino me condenando a sofrer com tudo que odeio?

Senti uma força me puxando para dentro do espelho. Pagode, moda, futilidades, vegetarianismo, transexualismo... tudo isso fará parte de mim se eu atravessar o portal para esse mundo. Em um esforço desumano juntei o pé de cabra e joguei com toda força no espelho. Ele estilhaçou-se em milhões de pedaços com o impacto fatal, e na mesma hora senti a restauração do equilíbrio. O espelho estava morto, e eu estava a salvo.

Juntei os cacos e coloquei no lixo. Nunca mais terei um espelho no meu quarto, essa realidade terrível não mais entrará em minha vida. Quem manda comprar coisas usadas, agora tenho sete anos de azar.